O livro Mappae Clavicula é um livro medieval, escrito em latim, que contém receitas para diversos matérias, incluindo metais, vidro, mosaicos, tintas e pigmentos. Pensa-se que parte das receitas tenha sido compilada por volta do século VI depois de Cristo, talvez em Alexandria, em grego. No entanto, já não existe nenhuma cópia desse texto grego original.
Esta publicação tem como objectivos relembrar aquelas que foram das primeiras metodologias e das primeiras técnicas de produção de compostos e mostrar as grandes mudanças que a ciência sofreu ao longo dos séculos. As seguintes receitas foram traduzidas a partir de excertos do Manuscrito de Phillips-Corning, do Mappae Clavicula, manuscrito esse que foi traduzido no século XIX e que se encontra exposto no Museu de Vidro de Corning, de New York.
127. Tinta púrpura a partir do murex
O murex pode ser obtido em qualquer mar, mais do que nas ilhas. É uma pequena concha, que possui um pequeno local para o sangue, que tem uma cor púrpura-avermelhada: a partir deste é feita a tinta púrpura. É obtido da seguinte forma. Pegue no murex, recolha o sangue com a carne, misture com salmoura num pote e guarde-o assim.
230.Corar peles de vermelho
Deixe a pele sobre cal por seis dias e depois coloque-a em sal e cevada por sete dias. Depois deixe-a secar, e depois amasse-a; cozinhe vermilion* em vinho e coloque o caldo nos odres por uma hora, e deixe-os secar
Nota: embora o vermilion (vermiculum) corresponda ao cinábrio (HgS), neste caso o autor estaria a referir-se ao corante orgânico kermes (corante obtido a partir dos corpos secos de insectos fêmea de Kermes vermilio).
230A. Corar peles de verde
Estique a pele numa prateleira e raspe-a em ambos os lados com uma lâmina. Misture sal com farinha e mel, deixe a mistura fermentar e deixe a pele repousar na mistura por uma noite ou duas. Pendure-a ao sol e amasse-a; core-a com cobre* e amasse-a.
Nota: com cobre o autor quereria referir-se, muito provavelmente, a sais de cobre (carbonato de cobre, cloreto de cobre ou acetato de cobre), ou verdigris.
231. Corar a pele de verde
Pegue nas fezes de um cão, de uma pomba e de um galo: dissolva-as num caldo e coloque as peles sem pelos na mistura. Deixe-as por dois dias e depois remova-as, lave-as e deixe-as secar. Pegue em alúmen da Ásia e lembre-se de tratar como foi acima ensinado, no caso do corante púrpura*. Cozinhe solda bem triturada em urina e depois deixe repousar. Cosa as peles na forma de odres (…), coloque a mistura nestes odres e esfregue-os bem, inflando-os um pouco, de forma a que estes tenham ar; processam-se os odres minuciosamente até a preparação ser absorvida. Depois disso, remova a composição, lave os odres uma vez, misture 4 onças de lulax com 6 libras de urina sem espuma e encha os odres com esta mistura tal como no caso do caldo de solda; misture bem, até que a humidade da mistura seja absorvida. Depois remova o que sobrar do caldo de solda e de lulax, deixe secar e core uma pele de ovelha com a mistura. Irá corar de verde.
Nota: Coloca-se o alúmen em água quente. Depois de ter repousado, remove-se a água, coloca-se água morna e agita-se. Coloca-se nesta composição uma ou duas peles, as quais são removidas e lavadas de imediato. O lulax é um ingrediente feito a partir de flores de salsa, flores de linho, magma de violeta, alúmen Egípcio, folhas de pastel (Isatis tinctoria)
240. Corar ossos, chifres e madeira de verde
Primeiro raspe o material que pretende corar e coloque-o em alúmen da Ásia: trate os ossos com alúmen por 12 dias; os chifres, por 9 dias; e a madeira por 4 dias. Depois cozinhe bem alguma solda e enquanto estiver a ferver, coloque o material a corar no líquido: e quando tiver arrefecido, misture algum lulax e deixe por 5 dias. Depois disso, remova o objecto da mistura e lave-o.
241. Corar os mesmos materiais de verde-azulado
Quando estiver a corar estes objectos de azul-esverdeado (venetum), trate com alúmen como foi explicado anteriormente; faça algum lulax e, se for osso, coloque-o em lulax por 10 dias; se for chifre, por 9 dias; e se for madeira, por 3 dias.
242. Corar os mesmos materiais de verde-maçã
Quando estiver a corar estes objectos, trate com alúmen como foi explicado anteriormente; cozinhe solda em urina e quando começar a ferver, coloque-os na mistura.
280. Como fazer sabão a partir de azeite ou sebo
Espalhe cinzas completamente queimadas sobre uma esteira de verga, ou sobre uma peneira de malha fina e gentilmente verta sobre estas água quente, de forma a que esta passe gota a gota. Recolha o líquido num pote limpo e passe-o mais duas ou três vezes sobre as mesmas cinzas. Depois do líquido estar bem clarificado, leve-o ao lume e quando estiver a ferver por algum tempo e quando começar a engroçar, adicione óleo e mexa muito bem. Se pretender fazer esta solução com cal, coloque uma pequena quantidade de cal na segunda porção do líquido, mas se quiser fazer sem cal, deixe ferver bem, tal como foi dito anteriormente até que engrosse bem. Depois deixe arrefecer num local adequado. Trabalhe o sabão com uma pá por 2, 3 ou 4 dias para que este coagule bem e que perca toda a água. Guarde o sabão, para ser usado posteriormente.
Se pretender fazer sabão com sebo, o processo é o mesmo, no entanto, em vez de óleo adicione sebo bem amassado e adicione um pouco de farinha de trigo a seu gosto e deixe cozinhar até engrossar, tal como foi dito antes. Agora coloque algum sal na segunda solução e cozinhe até que este seque completamente.
Nota: a lavagem das cinzas com água permite a remoção de sais das cinzas, nomeadamente hidróxido de potássio e a solução obtida corresponde ao lye.
Fontes: Elizabethancostume | Wikipédia – Mappae Clavicula | Manuscrito de Phillips-Corning | Wikipédia – Verdigris | Wikipédia – Kermes | Wikipédia – Pastel | Wikipédia – Lye | Wikipédia – Alum



