Os livros de fantasia estão repletos de referências a lágrimas com propriedades mágicas — quem não se lembra das regenerativas lágrimas da fénix Fawkes, nos livros do Harry Potter? Contudo, um estudo do Instituto Bernal da Universidade de Limerick, na costa Oeste da Irlanda descobriu que uso das lágrimas pode ir além da ficção: estas são capazes de produzir eletricidade.
Os investigadores verificaram que quando era aplicada pressão a uma proteína abundantemente presente nas nossas lágrimas, a lisozima, gerava-se eletricidade, sendo esta propriedade denominada por piezoeletricidade directa. Foi descoberta por Pierre Currie e o seu irmão Jacques Currie durante a segunda metade do século 19 e consiste na acumulação de carga elétrica em respostas a um estímulo mecânico e vice-versa. Esta propriedade é encontrada em diversos materiais inorgânicos, como o quartzo, mas também orgânicos (músculos, ossos, tendões, e até o DNA).
No entanto esta foi a primeira vez que descobriram piezoeletricidade nesta proteína, presente também na saliva, muco, leite e em grande quantidade na clara do ovo. É responsável pela destruição da parede das bactérias, possuindo portanto propriedades antibacterianas. Apesar de só agora se terem feito este tipo de estudos, a sua estrutura cristalográfica, importante para esta propriedade, é já conhecida desde 1965.
Os materiais piezoelétricos possuem várias aplicações, com utilizações desde os motores de vibração dos telemóveis aos sonares utilizados pelos navios. Uma vez que a lisozima é um material biológico, não tóxico, existe grande potencial na sua utilização na medicina. Um exemplo é a sua utilização como revestimento dos pacemakers, tendo uma dupla função: antibacteriana e de alimentação do aparelho. Outras aplicações futuras passam por uma libertação controlada de fármacos, recorrendo à lisozima como fonte de alimentação da bomba responsável por essa libertação.
Portanto a próxima vez que algo ou alguém te fizer chorar, agradece. Tens em mãos uma potencial fonte de energia!
Fontes:
A. Stapleton, M. R. Noor, E. U. Haq, C. Silien, T. Soulimane, S. A. M. Tofail. (2018) Pyroelectricity in globular protein lysozyme films. Journal of Applied Physics 123:12, 124701.
Matchar, E. ” Your Tears Can Generate Electricity”. Smithsonian. https://www.smithsonianmag.com/innovation/your-tears-can-generate-electricity-180965135/ (Acedido em 3 de Abril, 2018)
Miller, S. “Crying for Power? Your Tears Coould Generate Electricity”. Live Science. https://www.livescience.com/60599-electricity-generated-from-tears.html (Acedido em 3 de Abril, 2018)
“Irish scientists can now generate electricity from tears”. University of Limerick. https://www.ul.ie/news-centre/news/irish-scientists-discover-method-to-produce-electricity-from-tears (Acedido em 3 de Abril, 2018)
Galeon, D. “Your Tears Can Produce Electricity, A New Study Shows”. Futurism. https://futurism.com/your-tears-can-produce-electricity-a-new-study-shows/ (Acedido em 3 de Abril, 2018)
Dockrill, P. “Scientists Have Discovered a Way to Generate Electricity From Tears And Saliva”. Science Alert. https://www.sciencealert.com/scientists-have-discovered-a-way-to-generate-electricity-from-tears (Acedido em 3 de Abril, 2018)


