Nem sempre é fácil perceber quando alguém está a mentir, mas será essa percepção ainda mais difícil se essa pessoa não falar a mesma língua materna?
Existem duas teorias relativamente a esse tema. A teoria do esforço cognitivo sugere que mentir é um acto mais difícil numa língua estrangeira, pois representa um maior desafio a nível cognitivo do que na língua materna. Já a hipótese da carga emocional parte do pressuposto de que o acto de mentir está mais associado com as nossas emoções, do que a verdade. Níveis de stress elevados e comportamentos mais tensos são alguns dos factos que corroboram esta hipótese.
No entanto, estudos linguísticos, psicológicos e psicopsicológicos revelaram que falar numa língua não-nativa não representa uma carga emocional tão elevada, razão pela qual somos capazes de dizer palavrões ou determinadas expressões consideradas tabu, sem que isso nos afecte emocionalmente. Assim sendo é portanto de esperar que seja mais fácil mentir se o fizermos numa língua que não a nossa.
De forma a resolver esta questão, um grupo de psicólogos da Universidade de Würzburg, Alemanha, conduziu uma série de experiências em que várias pessoas tiveram de responder – por vezes verdadeiramente, outras nem tanto – a um determinado número de questões, quer na sua língua materna, quer numa língua estrangeira. As questões podiam ser de caracter neutro, como por exemplo “Berlim situa-se/não se situa na Alemanha?”, ou então questões mais pessoais, tais como “Alguma vez tomaste drogas ilegais?” ou “Serias capaz de trabalhar como modelo nu?”. Durante a resposta a estas questões, os investigadores mediram o tempo de resposta, a condutividade da pele e o batimento cardíaco de cada um dos participantes.
Os resultados obtidos resumem-se no seguinte:
- O tempo de resposta foi superior para as questões pessoais relativamente às neutras;
- Respostas na língua não-nativa demoravam mais tempo;
- Mentir demorava mais tempo do que dizer a verdade;
- Quando era usada uma língua estrangeira, essa diferença temporal não era significativa, quer em respostas neutras ou pessoais;
Com base nestes resultados os cientistas concluíram que o facto das respostas verdadeiras numa língua estrangeira serem geralmente mais longas do que na língua materna vai de encontro ao postulado pela teoria do esforço cognitivo. Falar numa língua estrangeira já é mais desafiante por si só, sendo ainda mais difícil se o que se diz for mentira, o que leva a que essas respostas acabem por ser mais curtas. Contudo o facto de ainda assim estas respostas serem mais longas do que na língua nativa está relacionado com a hipótese do apelo emocional, facilitando assim o acto de mentir.
Fontes:
Bartsch, G. “Lying in a foreign language is easier”. Universtät Würzburg. https://www.uni-wuerzburg.de/en/sonstiges/news/detail/news/lying-in-a-foreign-language-is-easier/ (acedido em 23 de Julho, 2018)

