És capaz de te imaginar a comer algo que foi cozinhado utilizando gás produzido a partir das tuas próprias fezes? Pois bem, os milhares de prisioneiros nas várias prisões de Ruanda não têm de o fazer uma vez que essa é a sua realidade diária.
Com o aumento do número de prisioneiros (120 000), a grande maioria deles condenados devido ao seu envolvimento no genocídio de Ruanda em 1994, surgiram dois grandes problemas: a necessidade de mais energia e uma melhor forma de tratar das grandes quantidades de dejectos produzidos por este elevado número de pessoas. A solução encontrada passou então pela construção de biorreactores, tratando-se de ambos os problemas de uma só vez.
As fezes destes prisioneiros são convertidas em biogás constituído essencialmente por metano e dióxido de carbono. Os restantes resíduos sólidos – já sem um mau odor – são então recolhidos e utilizados para a fertilização dos campos. O metano pode então ser separado e utilizado como fonte de energia nas cozinhas, reduzindo-se em 60% os custos anuais de madeira utilizada como combustível, algo que anteriormente rondava 1 milhão de dólares.
E como funcionam estes biorreactores?
Os biorreactores não são nada mais que tanques gigantes onde são colocadas bactérias de determinadas espécies, sendo estas as responsáveis pela degradação das fezes com produção de biogás e fertilizante. Estes tanques são estanques proporcionando o ambiente anaeróbico necessário para a proliferação destes microorganismos, sendo também uma forma de conter o biogás que é produzido. Um biorreactor novo pode demorar até dois meses a ficar activo, levando a partir dessa altura cerca de uma semana a produzir biogás. Por cada 100 m3 de dejectos que são colocados nestes depósitos produzem-se cerca de 50 m3 de biogás.
Este biogás é então utilizado na preparação da alimentação na prisão. Posteriormente os prisioneiros irão fornecer mais matéria prima ao biorreactor produzindo-se mais biogás e fertilizante. Este fertilizante será utilizado nos campos para produção de novos alimentos, criando-se um ciclo parcialmente auto-sustentável.
Desta forma transformou-se algo considerado “lixo” numa fonte de energia que permitiu poupar milhares de dólares ao governo de Ruanda. Espera-se que mais tecnologias deste género venham a ser utilizadas em países por todo o mundo, derivado do sucesso neste país.
Fontes:
Farivar, C. “Human feces powers Rwandan prison”. Wired. https://www.wired.com/2005/07/human-feces-powers-rwandan-prison/ (acedido em 30 de Julho, 2018)
Lepidi, P. “The Poop On How Rwanda Turned Prison Feces Into Energy”. Le Monde (english edition by Worldcrunch). https://www.worldcrunch.com/impact-organic-revolution/the-poop-on-how-rwanda-turned-prison-feces-into-energy (acedido em 30 de Julho, 2018)
Tumwebaze, P. “Rwandans using human waste for cooking”. The New Times. http://www.newtimes.co.rw/section/read/99773 (acedido em 30 de Julho, 2018)
“Prison Power”. Colors. http://www.colorsmagazine.com/stories/magazine/82/story/prison-power (acedido em 30 de Julho, 2018)


