Um estudo bastante recente veio debruçar-se sobre a relação entre o café e alterações cardíacas. Vamos descobrir mais sobre este assunto. Os resultados de um estudo recente permitiu observar a associação entre o consumo de café e o desenvolvimento de taquiarritmias cardíacas incidentais realizado no Reino Unido. Ao contrário do que habitualmente é abordado pela medicina, os autores responsáveis por este estudo relataram que os pacientes que bebiam café apresentavam menos taquiarritmias do que aqueles que não consumiam. Cada chávena diária de café foi relatada a uma diminuição de cerca de 3% de taquiarritmias em um acompanhamento clínico de cerca de 4 anos e meio. As especificações das taquiarritmias estavam mais associadas a fibrilação atrial e/ou flutter atrial e taquicardia supraventricular. No entanto, apesar destes autores terem utilizado uma diversidade de pacientes não é possível afirmar conclusivamente que o consumo de café protege contra taquiarritmias.
Num outro estudo do mesmo género, foi observado que os efeitos diretos da cafeína sobre a arritmogénese são complexos, com efeitos potencialmente arrítmicos (incluindo ativação simpática) e efeitos potencialmente antiarrítmicos (incluindo bloqueio do receptor de adenosina e propriedades antioxidantes). Quando se considera também os efeitos indiretos da cafeína e a possibilidade de efeitos de outros ingredientes ativos do café, torna-se rapidamente evidente que não é possível a previsão dos efeitos da ingestão habitual de café sobre a propensão a taquiarritmias, na população geral ou em um indivíduo específico. Consequentemente, qualquer associação entre o consumo de café e taquiarritmias é biologicamente plausível.
Já em 2014, tinha sido concluído que a exposição habitual à cafeína estava associada a uma tendência de redução da fibrilação atrial incidental. Espera-se que indivíduos geneticamente predispostos a níveis mais elevados de ingestão de café ou com metabolismo lento de cafeína tenham níveis mais elevados de cafeína.
Com base na descrição generalizada de alguns estudos que estabelecem uma correlação entre a ingestão de café e a redução de taquiarritmias, como podemos integrar essas observações na prática clínica? Em conjunto com a literatura pré‑existente, os dados obtidos por estes autores nos seus estudos não apoiam de forma convincente a inferência de que a ingestão habitual de café apresenta relação causal com a probabilidade reduzida de taquiarritmias cardíacas incidentais. Portanto, não seria aconselhável que nossos pacientes bebessem café apenas para esse propósito. No entanto, é pequena a probabilidade de que a ingestão habitual de café esteja casualmente relacionada a uma probabilidade aumentada de taquiarritmias cardíacas na população geral. Assim, parece desnecessário que nossos pacientes evitem tomar café por causa dessa preocupação. Essas conclusões também parecem ser aplicáveis a pacientes com taquiarritmias cardíacas conhecidas, embora com menos certeza.
Fontes:
- Manual MSD Versão para Profissionais de Saúde – Comentário – Café e taquiarritmias cardíacas, por L. Brent Mitchell, MD, Libin Cardiovascular Institute of Alberta, University of Calgary.
- Kim EJ, Hoffman TJ, Nah G, Vittinghoff E, Delling F, Marcus GM. Coffee consumption and incident tachyarrhythmias: reported behavior, Mendelian randomization, and their interactions. 19 de julho de 2021. JAMA Intern Med doi:10.1001/jamainternmed.2021.3616.
- Cheng M, Hu Z, Lu X, Huang J, Gu D. Caffeine intake and atrial fibrillation incidence: dose response meta-analysis of prospective studies. Can J Cardiol 30:448–454, 2014.

