De todas as adaptações que permitiram aos animais prosperar no ambiente inóspito que era a Terra nos seus primórdios, saindo das profundezas dos oceanos para habitar a crusta continental, existe uma que é única no reino animal – a de fazer cocó com forma cúbica, uma peculiaridade pertencente aos vombates (Figura 1).
Os vombates são pequenos animais marsupiais originários da Austrália. Ao contrário dos restantes marsupiais, estes possuem a abertura da bolsa voltada para trás de forma a não entrar terra para o seu filhote enquanto escavam as suas tocas e túneis. Mas como são estes animais capazes de produzirem fezes com esta forma geométrica? Terá esta característica algum tipo de vantagem evolutiva? Estas são as questões que têm ocupado a cabeça de vários cientistas durante anos, mas não mais, finalmente conseguiu-se uma resposta!
Este ano, Patricia Yang, investigadora do Georgia Institute of Technology, especializada em fluídos corporais, começou a interessar-se por este tópico após ter ouvido falar sobre ele num congresso.
Ao início não queria acreditar no que estava a ouvir, afinal de contas, como e porquê defecará um animal fezes com forma cúbica (Figura 2). Após confirmar este facto, Yang começou a tentar desvendar a razão por detrás deste fenómeno.
Existem vários tipos de teorias. Uma delas postula que os vombates fazem cocó em cubos de forma a poder empilha-los no seu território sem que estes rolem. Contudo o especialista em vombates, Mike Swinbourne, cientista de Universidade de Adelaide na Austrália, diz que isso não passa de um equívoco. É verdade que os vombates usam as suas fezes para marcar o seu território, “mas não é como se estes andassem propriamente a fazer pequenas pirâmides”, diz Swinbourne. “Apenas defecam onde têm de defecar”.
Segundo Swinbourne a razão do cocó cúbico é outra e está relacionada com o ambiente seco em que estes vivem. Contudo, a maioria das vezes há mais que uma resposta para o mesmo problema, e foi isso que Patricia Yang tentou desvendar. Contudo não foi uma tarefa nada fácil, levando meses apenas para conseguir intestinos destes animais. A solução acabou por ser enviarem da Austrália para a América do Norte, os intestinos de dois vombates que infelizmente tinham sido atropelados.
Yang tinha duas hipóteses: ou o ânus destes animais é quadrado, ou os cubos se formam imediatamente à saída do estômago. No entanto a chegada dos intestinos dos animais demonstrou que nada disso é o caso. Aparentemente o aspecto mais importante é a forma como os intestinos dos vombates esticam.
A pressão que os nossos intestinos exercem à medida que o quimo os vai percorrendo é o que dá forma às nossas fezes, o que significa que a forma dos nossos intestinos vai afectar a forma das nossas fezes. De forma a verificar a forma dos intestinos dos vombates em comparação com os de outro mamífero, Yang expandiu os intestinos de vombate e de porco recorrendo a um balão, conseguindo desta forma comparar a sua elasticidade.
O que ela verificou é que o instestino de porco possui uma elasticidade relativamente uniforme, o que explica as fezes redondas deste animal. Por outro lado o intestino do vombate tem uma forma mais irregular, possuindo duas ranhuras onde o intestino é mais elástico, algo que Yang acredita ajudar a moldar as fezes destes animais.
Apesar de ainda haver várias questões por responder, esta foi a primeira vez surgiu uma explicação científica para este fenómeno. “Até agora só existiam duas formas de produzir cubos”, diz Yang, referindo-se à moldagem de materiais mais maleáveis, e ao corte de objectos mais duros.
“Os vombates possuem uma terceira forma”.
Fontes:
Wootson Jr., C. R. “Scientists stuffed balloons into dead wombats to learn why they poop cubes”. The Washington Post. https://www.washingtonpost.com/science/2018/11/19/scientists-stuffed-balloons-into-dead-wombats-learn-why-they-poop-cubes/ (Acedido em 23 de Novembro, 2018)



