
Há evidência da utilização de ferramentas de pedra pelos nossos antepassados para processar certos alimentos, facilitando a sua mastigação. Crédito: ©hadkhanong/Fotolia
Uma das partes mais aborrecidas no dia-a-dia de um chimpanzé é mastigar. Estes primatas passam mais de 6 horas por dia a mastigar frutos e ocasionalmente, a carcaça de outros animais. Isto é apenas possível devido aos dentes grandes e maxilas largas que estes possuem, tal como os nossos antepassados possuíam.
A principal razão pela qual nós passamos tão pouco tempo a mastigar deve-se ao facto de nos alimentarmos de uma dieta muito mais rica que aquela a que os nossos antepassados tinham acesso. Enquanto os chimpanzés subsistiam principalmente em fruta, os humanos consomem alimentos mais ricos em nutrientes e energia, necessitando de menores porções, como é o caso da carne. Outra razão é o facto de cozinharmos os alimentos, o que torna a carne muito mais fácil de mastigar e de digerir. No entanto, o antropologista evolucionário, Daniel Lieberman acredita que os nossos antepassados se começaram a alimentar de carne muito antes de aprenderem a cozinhá-la. Há evidências que datam de há 2,5 milhões de anos de que estes se alimentavam de carne. No entanto o ato de a cozinhar não parece ser comum até há apenas 500 000 anos.
Um novo estudo trouxe à luz a ideia que o desenvolvimento de ferramentas de pedra, que permitiam cortar carne e esmagar certos vegetais, tornou mais fácil a mastigação, reduzindo o tempo e força necessários. Isso permitiu o desenvolvimento de maxilas e dentes mais pequenos.
O estudo efetuado por Lieberman em parceria com a sua colega de Harvard, Katherine Zink baseou-se no uso destas ferramentas rudimentares. Vegetais como inhame e beterraba foram reduzidos a pasta e a carne cortada. Pediram então a um grupo de voluntários, aos quais colocaram elétrodos na face, e analisaram o tempo e força necessária para mastigar estes alimentos na sua forma processada (esmagados e cortados) e não processada, comparando-os ainda com alimentos cozinhados.
O que verificaram logo à partida é que a carne crua é praticamente impossível de mastigar com dentes humanos, ou semelhantes aos de um chimpanzé. Contudo, o simples facto de cortar a carne altera tudo. A partir do momento em que os nossos antepassados começaram a partir a carne em pedaços mais pequenos antes de a colocarem na boca, tornando-os mais fáceis de mastigar e digerir, permitiu, pela seleção natural, o desenvolvimento de dentes e maxilares mais pequenos, levando ao desenvolvimento da fala. Estas características anatómicas tornaram também a cabeça mais fácil de equilibrar ao correr, uma característica importante na caça.
Essas alterações permitiram reduzir o número de vezes que é necessário mastigar os alimentos em cerca de 17%, o que equivale a menos 2,5 milhões de vezes por ano.
Contrariamente ao que muitos investigadores acreditam, Lieberman e Zink dizem que o processo evolutivo deu-se em duas fases. Inicialmente, o esmagar e cortar dos alimentos levou a um impulso na evolução, tendo então sido ajudado pelo cozinhar dos alimentos.
Fonte:
Wade, L. (2016). How sliced meat drove human evolution. Acedido a 05 de Dezembro, 2016, em http://www.sciencemag.org/news/2016/03/how-sliced-meat-drove-human-evolution

