Queridos Barbaritanos,
Escrevo de longe, qualquer que seja a vossa definição de distância. E gatafunho, hoje em forma de carta, de papelinho rabiscado pela tinta que a caneta vai vomitando, vagarosamente. É bastante natural que as canetas enjoem. Viramo-las e reviramo-las, duplas piruetas, semiengrupados e quase carpas, meios mortais invertidos com inclinação de 25,3% à esquerda. Acho que elas nos odeiam por isto. É raiva pura! Mas é com isto que elas vão dando continuidade à espécie. Nunca se apegarão às pessoas, jamais gostarão do seu utilizador habitual. Andam de mão em mão, alheias aos olhares, cumprindo o serviço de uma vida curiosamente longa. No final, desgastam-se, secam, finalmente. E aí vemo-nos obrigados a pegar noutra, uma nova, substituindo perfeitamente a anterior. E se todas as canetas existentes fossem imortais? Não haveria reprodução, seleção aleatória, nova combinação genética, mudanças estruturais. Todas as riscas seriam as mesmas, todos os traços se imitariam irritantemente. Que tristeza seria!
Quero agora desculpar-me por ter deixado de comunicar. Três semanas, três crónicas, nada feito. Aposto que se aguentaram! Mas eu tenho uma explicação para tudo isto, antes não tivesse. Outrora eu era apenas alguém com o sonho de construir uma esplêndida máquina do tempo. Até que finalmente uma ideia surgiu. Depois de vários livros, enciclopédias, rascunhos, desenhos ancestrais, muita imaginação e duas pitadas de canela, porque fica sempre bem, consegui que a invenção funcionasse. E como alguém deveras normal, decidi testá-la. E viajei, durante todo este tempo. Dirigi-me ao Cretáceo, quase era comida por um Irritator challengeri com oito metros de comprimento e três de altura, grande boca e dentes assustadores e afiados, para minha sorte, carnívoro e bastante irritadiço. Basta dar uma olhadela ao nome. Assisti à partida dos ousados portugueses, às “armas e os barões assinalados”, às mães, esposas, irmãs, famílias inteiras despedaçadas vendo seus filhos, maridos, irmãos partir “Por mares nunca dantes navegados”. De facto, tudo o que fizeram foi muito além “do que prometia a força humana” e por isso Camões cantou, cantou sem cessar “o peito ilustre Lusitano”. E o mais curioso é que eles não sabiam sequer que um dia, algures pela eternidade, eles seriam lembrados, libertando-se do corpo fútil e sujo, tornando-se autênticos mitos da coragem e pioneiros na descoberta do mundo.
Quis voltar, quis muito. Mas mal assentasse um dos pés no ano em que nos encontramos, a máquina perder-se-ia para sempre. Então decidi explorar mais! E foi aí que percebi que a História com o verdadeiro “h” grande não pode ser mudada. Aconteceu assim porque ninguém teve a destreza de a mudar na altura em que era suposto. Então prossegui. Ainda tive tempo para tomar um café com Fernando Pessoa. Fiquei durante cerca de dez minutos a fitá-lo. Nenhuma palavra se ouvia. Até que proferiu: “Não te foi dado o poder de perceber as loucuras que humanamente exprimimos?”. Respondi: “Não pertenço aqui, cheguei do futuro.” Estranho ou não, os olhos dele transmitiram-me confiança. Ele acreditara em mim. Soaria loucura a qualquer um que estivesse no lugar dele. Explicação: ele não era, definitivamente, um qualquer.
Mas depois acordo, dou por mim atordoada, olho o relógio e tudo à minha volta. Que bagunça! Devia arrumar isto – pensei. Voltei a pousar a cabeça na almofada: que sonho incrível! Passara três semanas a dormir ou apenas despegada do mundo? Respostas tão erradas. Acontecera nem mais nem menos, o seguinte: foi o maior sonho que alguma vez tive, demoraria eternidades naquele universo paralelo tão bom de se ver. Por aqui, não passaram mais que umas doze horas e meia. Tão simples, tão fragmentado, tão subjetivo que este relógio pode ser. Ou então seria o cérebro a tentar mais umas partidas engraçadas com fim em gargalhadas. Pudera que pudesse gravar o sonho num dos CD’s da prateleira e fazê-lo começar, recomeçar, começar outra vez, vivê-lo vezes sem conta, agora por mais que apenas umas insignificantes doze horas e pouco.
E é por isso que temos memória. Não existe para guardarmos coisas más, que até nos fazem sofrer e chorar, lamentar por tanta estupidez ao mesmo tempo. Servem para guardar algo que nos seja útil, que nos permita olhar no espelho e pensar na magnitude daquilo que conseguimos criar e transformar em bom, coisas que querem ser lembradas até ao dia em que finalmente iremos poder sonhar pela eternidade. Porque a alma não morre, as canetas não morrem, os livros não se movem sozinhos: o corpo vai-se, vira pó, a tinta espalha-se pelo papel consumido pelo ar, as letras desmancham-se com a água do mar.
Sonhem sempre, Barbaritanos!
Desprendam-se deste lugar a que chamam aqui e agora.
Sejam mais que um!
