
Gato-bravo Europeu
Felis silvestris silvestris
Colocando um gato doméstico junto ao seu ancestral directo, o gato-bravo africano pode tornar-se difícil encontrar diferenças. Têm aproximadamente o mesmo tamanho, a mesma forma e ambos se parecem como gatos. Mas enquanto o gato-bravo é feroz e selvagem, o gato doméstico devido aos seus 10.000 anos de domesticação, é dócil, tendo-se tornado um dos animais de companhia mais populares da actualidade.
Agora os cientistas começaram a identificar mudanças a nível do genoma que levaram a esta fantástica transformação. As descobertas podem-nos elucidar como outras criaturas, incluindo os humanos, se tornaram dóceis e disciplinadas.
Os gatos entraram na nossa sociedade há cerca de 9500, não muito depois do Homem se iniciar na agricultura no Médio Oriente. Movidos pelos ratos que invadiam armazens de cereais, os gatos-bravos deslocaram-se dos desertos para os vilarejos. Muitos cientistas suspeitam que aí os gatos-bravos se tenham domesticado a si mesmos, com os mais amistosos a aproveitarem-se da comida e protecção dada pelos humanos. Ao longo dos anos os gatos diminuiram ligeiramente de tamanho, adquiriram uma panóplia de cores e feitios no seu pêlo, e (a grande maioria) perdeu as suas tendências antissociais. Outros animais domésticos como os cães sofreram transformações similares, no entanto os cientistas pouco sabem acerca dos genes envolvidos.
Um grupo de investigadores liderado por Michael Montague, postdoc na Washington University School of Medicine em St. Louis descobriu alguns desses genes. Começaram por analisar o genoma do gato doméstico – uma fêmea da raça abissínio. De seguida compararam-no com o genoma da vaca, tigre, cão e e com o genoma humano.
Esta análise publicada na passada semana no site da revista Proceedings of the National Academy of Sciences, revelou que 281 genes mostram sinais de mudanças rápidas ou numerosas – uma marca de selecção recente – em gatos domésticos. Algumas destas alterações parecem estar relacionadas com a visão e a audição, enquanto outras estarão relacionadas com o metabolismo de lípidos, e são provavelmente uma adaptação ao estilo de vida altamente carnívoro dos gatos.
Contudo as descobertas mais intrigantes surgiram com a sequenciação do genoma de 22 gatos domésticos – representativos de uma variedade de raças e locais – e a sua comparação com o genoma de 2 gatos-bravos africanos (Felis silvestris lybica) e 2 gatos-bravos europeus (Felis silvestris silvestris). Os investigadores descobriram pelo menos 13 genes que foram alterados com a domesticação dos gatos. Alguns destes genes parecem desempenhar um papel a nível cognitivo a nível da resposta ao medo e de alterações comportamentais relacionadas o fornecimento de alimento. Segundo Montague isto faz todo o sentido pois “os para os gatos terem sido domesticados tiveram de perder o medo quanto a novas localizações e/ou indivíduos, e a promessa de comida manteve-os por perto”.
Assim sendo porque é que os gatos continuam a ser mais selvagens do que por exemplo os cães? Segundo William Murphy, geneticista na Texas A&M University, o genoma dos gatos aparenta ter sofrido menos pressão evolutiva, e mais recentemente que os cães. Isso não se trata de nenhuma surpresa uma vez que os cães são o melhor amigo do Homem há já 30.000 anos. Murphy diz ainda que “os gatos não foram seleccionados com um propósito, assim como os cães. Eles simplesmente mantiveram-se por perto e os humanos toleraram-nos”.
Não podem no entanto ser considerados animais “semi-domesticados”, como é referido no artigo, diz Greger Larson, um Biólogo Evolutivo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, uma vez que “ficar deitado no sofá ignorando todos os estímulos que o rodeiam, é pedir muito para um carnívoro selvagem”.

