Hoje no Espaço Saúde vou abordar um tema que tem vindo a roubar a atenção de alguns investigados já há alguns anos por abordar um tema não delicado como é o caso do nosso cérebro. Assim, de forma muito simplista, as calcificações intracranianas são relativamente comuns, apesar de parecer estranho termos um osso dentro do cérebro. Calcificações cerebrais são estruturas ósseas que se formam dentro do cérebro compostas por material semelhante aos nossos ossos e dentes – hidroxipatia – uma amalgama de fosfato cálcio com outros componentes orgânicos. A maior complicação é que não deveria formar-se em partes moles como o cérebro, este tipo de estruturas. Estes tipos de calcificações podem estar associados a doenças do sistema nervoso central (SNC) como infeções, anomalias congénitas, distúrbios metabólicos ou processos tumorais, entre outras. Normalmente a sua identificação e deteção é feita através da realização de exames de tomografia computorizada do crânio como áreas de alta densidade (que habitualmente surgem como zonas brancas).

Figura 1 – Calcificação bilateral e simétrica dos núcleos da base capturados em imagem de tomografia computorizada.
Basicamente, são os núcleos da base (representados na Figura 1) que podem apresentar calcificações e, na maioria dos casos, a calcificação é de dimensão pequena, localizada bilateralmente, restrita aos globos pálidos (constituintes dos núcleos lentiformes), mas pode envolver o putámen, núcleo caudado, tálamo, núcleos denteados do cerebelo e substância branca dos hemisférios cerebrais.

Figura 2 – Além do tálamo, que é uma parte do diencéfalo, os outros núcleos cinzentos que se distribuem no interior dos hemisférios são formações cerebrais propriamente ditas. Entre estas estão o núcleo caudado, o núcleo lentiforme, o claustrum e o corpo amigdalóide.
O surgimento destas calcificações nos núcleos da base está associado a várias condições patológicas como distúrbios na paratiroide, esclerose tuberosa, síndrome de Cockayne, anóxia neonatal, intoxicação por metais pesados e monóxido de carbono, terapia com metotrexate, radioterapia, encefalites causadas pelo vírus do sarampo e varíola. Por outro lado, existem alguns casos clínicos retratados em que não há uma associação entre os achados clínicos e o quadro clínico do paciente, o que causa alguma controvérsia pelos especialistas na valorização do significado clínico destes achados.
Relatos das manifestações clínicas
Basicamente, sabe-se que e, de acordo com a literatura, os pacientes que apresentam este tipo de calcificações podem ter comprometimento nos movimentos, na linguagem, casos de demência, crises epiléticas, quadros psiquiátricos e distúrbios do equilíbrio. À parte disso, ainda não existe uma clareza entre a associação destes sintomas e as calcificações.

Tabela 1 – Aspetos clínicos dos pacientes com calcificações bilaterais dos núcleos da base na TC de crânio.
Assim, as manifestações clínicas observadas em diversos pacientes foram variadas e, na maioria dos casos, não foi possível estabelecer correlação com o local envolvido na calcificação. Deste modo pode-se sugerir que, em muitos casos, as calcificações são achados ocasionais e o quadro apresentado pelos pacientes seria acidental.
Fontes:
- Glória Maria A.S. Tedrus, Lineu Corrêa Fonseca, Elizardo Nogueira Jr., CALCIFICAÇÃO NOS NÚCLEOS DA BASE NA TOMOGRAFIA COMPUTADORIZADA Correlação clínica em 25 pacientes consecutivos. Arq Neuropsiquiatr 2006;64(1):104-107.
- CREMEPE – “Os sintomas da calcificação cerebral aparecem após os 40”, por Joelli Azevedo.
Tabela: 1

