Há aproximadamente 6 milhões de anos os nossos ancestrais hominídeos iniciaram a sua locomoção na vertical. Desde então, o ser humano, tem como contacto com o chão a sola dos pés. Evidência existente indica que calçado como sandálias ou mocassins não foram inventados até há 40 mil anos, sendo que a peça de calçado mais antiga alguma vez encontrada data de há apenas 8 mil anos. Quando pensamos em calçado com amortecimento, tal não existia até à Revolução Industrial. Assim sendo, os calos dos nossos pés – áreas da nossa pele que são mais espessas e duras – eram a única proteção existente.
Um estudo efetuado por Nicholas Holowka e os seus colaboradores determinou que a espessura dos calos dos indivíduos que reportaram andar sempre descalços era aproximadamente 30% superior à daqueles que usam calçado no dia-a-dia. Não só os calos destes indivíduos eram mais grossos como também eram mais duros. Presumidamente o facto de terem calos mais espessos e mais duros atuava como se da sola de um sapato se tratasse.
Os nossos pés são incrivelmente sensíveis, permitindo-nos obter sensações como a do caminhar na areia, ou a dolorosa experiência de pisar em legos. Esta sensibilidade é informação útil que o nosso cérebro utiliza para corrigir de forma precisa a nossa postura e modo de andar, de um modo similar a como a sensibilidade dos nossos dedos nos permite manusear objetos de forma delicada. Para além disso, os pés de pessoas que andam descalças são de um modo geral mais saudáveis; condições como joanetes ou pé chato são raras em pessoas que raramente usam calçado.
Quer isto então dizer que devemos todos passar a andar descalços? Bem, talvez não. O uso de calçado apropriado é essencial em pessoas com alterações morfológicas nos pés assim como pode aumentar a performance de atletas profissionais. Além disso o calçado ajuda-nos a manter os nosso pés quentes e providência mais proteção do que os calos são capazes de dar, essencialmente na parte superior do pé (exemplo: as botas de biqueira de aço). Assim sendo a verdadeira questão não é se devemos usar calçado, mas sim que tipo de calçado devemos usar.
De acordo com os estudos efetuados por Holowka e os seus colaboradores, a utilização de uma sola dura pode ter as suas vantagens, uma vez que esta mimetiza de alguma forma a existência de calos. De facto o calçado usado pelos pilotos de Formula 1 possui uma sola dura de modo a aumentar a sensibilidade.
Podemos então concluir que é importante manter a sensibilidade dos nossos pés e para tal devemos utilizar calçado que o possibilite. Isto é especialmente verdade no caso de pessoas para as quais manter a estabilidade possa ser um desafio, como é o caso das pessoas de idade. Vários estudos têm demonstrado que o uso de calçado com solas duras diminuiu o risco de queda, um problema com bastante relevante nessa faixa etária.
Fontes:
Holowka, N. B., Wynands, B., Drechsel, T. J., Yegian, A. K., Tobolsky, V. A., Okutoyi, P., . . . Lieberman, D. E. (2019). Foot callus thickness does not trade off protection for tactile sensitivity during walking. Nature, 571(7764), 261-264.
D’Août, K. (2019).Walking on your sensitive sole. Nature 571(7764), 176-177.

