Nos últimos anos, o número de crianças não vacinadas tem vindo a aumentar. O movimento anti-vacinação tem sido defendido por grupos que postulam que as vacinas terão um papel importante no desenvolvimento de doenças comportamentais, tais como o autismo e doenças do espetro autista (DEA). Para além disso, estes grupos também defendem que as vacinas são constituídas por químicos perigosos para as crianças. As vacinas contra a rubéola, papeira e sarampo (em Portugal denominada por VASPR) e as contra a difteria e tétano (em Portugal denominada por DTPa e que também protege contra a tosse convulsa) são apontadas como as principais causadoras das DEA.
A não vacinação das crianças tem tido consequências desastrosas (e, permitam-me dizer, evitáveis). Só no ano 2011 o Center for Disease Control (CDC) reportou 17 surtos de sarampo nos Estados Unidos. Este ano, um menino de 6 anos não vacinado morreu de difteria em Espanha. Há 28 anos que Espanha não tinha um único caso de difteria. (o artigo publicado no FCiências sobre este incidente pode ser consultado aqui).
No entanto, um estudo publicado em Junho de 2014 na revista “Vaccine” vem desmistificar toda a especulação em volta deste assunto. Taylor e colegas investigadores da Universidade de Sidney, Australia, desenvolveram um estudo que pretendeu determinar a incidência de autismo em crianças vacinadas com a vacina VASPR. Os autores também estudaram os níveis de mercúrio (Hg) e timerosal (um composto derivado do Hg), presentes nas vacinas do tétano e difteria, de modo a verificar se poderiam ser os causadores diretos de autismo em crianças vacinadas.
Para tal, os autores fizeram uma revisão de estudos conduzidos em vários países num período de tempo que variou entre 1950 e março de 2014. De entre todos os estudos, 10 foram os que se enquadraram nos critérios de inclusão, tendo sido analisados dados de 1 266 327 crianças.
Os resultados do estudo mostram que não há nenhuma relação entre a VASPR, Hg e timerosal e o autismo e DEA. Os estudos mostram também que não há risco aumentado de desenvolver autismo ou DEA após a vacinação com a VASPR ou a exposição a Hg ou timerosal. Por fim, os estudos não encontraram nenhuma ligação entre a exposição individual a Hg, timerosal ou vacinação com a VASPR e o desenvolvimento só de autismo ou só de DEA.
Em suma, esta análise permitiu concluir que não existe, de facto, qualquer relação entre a vacinação e o desenvolvimento de autismo ou DEA.
Em Portugal, o Plano Nacional de Vacinação (PNV) é uma iniciativa com já 50 anos e que sempre teve uma forte aceitação e adesão por parte da população. O PNV permitiu combater doenças extremamente graves (e, a maioria das vezes, mortais) como a poliomielite, a difteria e o sarampo e a rubéola autóctone.
As vacinas funcionam. São necessárias, fundamentais. E, em cima de todos os estudos que afirmam isso, este é só mais um.
Fontes:
Taylor LE, et al. Vaccines are not associated with autism: An evidence-based meta-analysis of casecontrol and cohort studies. Vaccine (2014), http://dx.doi.org/10.1016/j.vaccine.2014.04.085

