A comida que ingerimos é cada vez menos nutritiva, algo que se tem vindo a agravar ao longo das últimas décadas. Mas qual a razão por detrás disto? Devemos estar preocupados?
Um estudo efectuado em 2004 avaliou a composição nutricional de 43 vegetais, comparando os valores de 1950 com os de 1999. O que se observou foi que, em média, o conteúdo proteico desses vegetais diminuiu em 6%, os níveis de vitamina C diminuíram em 15% e de vitamina B2 em 38%, números por si só assustadores. Houve ainda diminuição de alguns minerais como o ferro e o cálcio. Contudo este estudo requer algum cuidado na sua análise, visto ser difícil saber até que ponto a determinação efectuada em 1950 foi precisa.
No entanto com a ocorrência de estudos mais recentes tem-se verificado um padrão – os nutrientes presentes nos vegetais que comemos hoje são em menor quantidade. O que poderá estar a causar isto?
Um possível factor apontado como a causa dessa diminuição é a depleção do solo. Uma vez que as plantas retiram os nutrientes que necessitam deste, práticas de agricultura intensivas foram tidas como a causa por detrás deste fenómeno. Contudo, apesar dos níveis de nutrientes e minerais serem actualmente mais baixos nas plantas, sempre houve uma enorme preocupação por parte dos agricultores em manter os solos férteis através da sua adubação e de rotação de culturas. De facto se as plantas não tivessem todos os nutrientes que necessitam, não cresceriam tão bem como fazem. Por essa razão, este argumento pode ser insuficiente.
Se a depleção dos solos não é então a (única) causa, o que será? Outra possibilidade é a da selecção artificial. Quando olhamos para vegetais como o milho, um dos que mais foi sujeito a selecção artificial, este nada tem a ver com aquele que lhe deu origem. Desde que o Homem se dedicou à agricultura que temos seleccionado de forma artificial os vegetais que plantamos, escolhendo aqueles que crescem mais, que são mais resistentes a pragas, etc.
O mundo em que vivemos hoje é prova de que fomos bem sucedidos, os vegetais e fruta que cultivamos são de maiores dimensões e crescem mais rápido do que acontecia no passado. Mas serão mais nutritivos? Será que acidentalmente temos seleccionado os vegetais que são menos nutritivos em detrimento do seu tamanho?
Como podemos avaliar se a selecção artificial é a causa por detrás deste fenómeno? É praticamente impossível comparar a composição nutricional de uma planta actual com aquela que lhe deu origem há centenas ou até mesmo milhares de anos. Assim sendo precisamos de uma planta que nunca tenha sofrido selecção artificial, e o seu nome é Solidago. Esta planta maioritariamente encontrada na América do Norte é a principal fonte de proteína para as abelhas que dela se alimentam, mas não para os humanos, razão pela qual permaneceu intocável até aos dias de hoje. Mas como podemos ainda assim saber como era esta planta há 100 ou 200 anos atrás? Felizmente o Smithsonian Institution possui centenas de amostras de Solidago que datam até 1842, o que permitiu aos cientistas compará-las com a planta actual. Os resultados obtidos foram surpreendentes! A quantidade de proteína destas plantas sofreu uma redução de 30% comparativamente há quase 200 anos, descoberta que revela que a causa da perda nutricional das plantas também não se deve à selecção artificial.
Outra justificação apontada por muitos é o dióxido de carbono (CO2), ou melhor, os níveis crescentes deste na nossa atmosfera. As plantas como seres vivos autotróficos produzem o seu próprio alimento através da fixação do dióxido de carbono. Nos últimos séculos os níveis de dióxido de carbono têm vindo a aumentar passando de 218 ppm para mais de 400 ppm nos dias de hoje. Pode não parecer muito, mas se pensarmos em termos de “alimento” para as plantas, este praticamente duplicou. O resultado desse aumento é visível do espaço, algo conhecido por “enverdecer do planeta”. O impacto do dióxido de carbono no crescimento das plantas é algo que tem vindo a ser estudado pelos cientistas utilizando uma técnica chamada de FACE (Free Air CO2 Enrichment), que consiste na injecção de mais CO2 na área onde as plantas crescem. Verificou-se que a presença de mais CO2 leva a um maior crescimento das plantas, sem que no entanto estas se tornem mais nutritivas, possuindo apenas mais carboidratos. No entanto o facto de a concentração de nutrientes ser menor, não indica que a quantidade de nutrientes seja menor, devendo-se sim a algo conhecido como “o efeito da diluição”.
E o quê que isso representa para nós? Os cientistas estimam que em 2050, 150 milhões de pessoas estejam no limiar de deficiência proteica. Quererá isto dizer que devemos todos começar a tomar vitaminas e suplementos? A resposta é não, pelo menos para já. A diminuição do conteúdo proteico nas plantas ainda não é suficiente para ter qualquer efeito no nosso organismo, sendo que façamos uma dieta rica e variada.
Contudo temos outro problema em mãos. O efeito da diluição causado pelo aumento dos níveis de CO2 pode exacerbar a actual epidemia de obesidade. A lógica é a seguinte – nós sentimo-nos saciados após termos consumido uma determinada quantidade de proteína. Se os níveis de proteína nas plantas que comemos estão a diminuir, teremos de consumir mais para nos sentirmos saciados, acabando assim por ingerir mais carboidratos, e mais gorduras para conseguirmos o mesmo nível de proteína. Apesar de para já ser apenas uma teoria, uma coisa é certa – os crescentes níveis de CO2 na atmosfera estão a mudar a comida que comemos.
Baseado no vídeo “Is Our Food Becoming Less Nutritious?” da autoria de Derek Muller publicado no seu canal do YouTube, Veritasium




