Hoje no espaço saúde irá ser abordado um tema bastante comum entre a população feminina, mas que ainda continua a ser um assunto tabu. Assim, este post vai tentar desmistificar os mistérios por detrás desta patologia.
O endométrio é o principal local anatómico sobre o qual se faz incidir esta patologia designada por endometriose, ou seja, é uma das camadas que constitui o útero e que corresponde ao seu revestimento interno. No desenrolar do ciclo menstrual da mulher, o endométrio é regenerado ciclicamente através de um processos intitulado de descamação acoplado consequentemente a regeneração. Esta descamação corresponde, portanto, à menstruação e permite a renovação cíclica de todos os elementos presentes ao nível do tecido endometrial.
O que é a endometriose?
A endometriose caracteriza-se pelo processo clínico no qual as células que constituem o endométrio se localizam fora do local anatómico normal e correto, por exemplo, quando ocorre a migração destas células para o peritoneu pélvico, ovários, bexiga, apêndice, intestinos ou até mesmo para o diafragma.
Estas são as formas mais comuns da manifestação clínica desta patologia, ou seja, essencialmente centradas na cavidade abdominal. No entanto, embora mais raramente, esta pode afetar outros órgãos mais distantes, como o pulmão, nariz ou pele.
Assim, a prevalência da endometriose é de cerca de 10% da população em idade fértil. No caso das mulheres que apresentam infertilidade, esta prevalência anteriormente apontada aumenta para cerca de 25 a 45%.

Figura 1 – Endométrio normal (imagem do lado esquerdo) e com endometriomas – locais mais prováveis (imagem do lado direito).

Figura 2 – Classificação da endometriose visto por citoscopia.
Causas da endometriose
A endometriose não é só um tema pouco falado devido ao assunto se manter muitas das vezes em tabu, mas também porque a sua origem ainda não é completamente conhecida e, desta forma, motivo de controvérsia.
A menstruação retrógrada através das trompas de Falópio, fenómeno fisiológico normal na maioria das mulheres, pode facilitar a implementação de tecido endometrial de forma anormal na zona pélvica e, assim, promover o desenvolvimento da endometriose.
No entanto, para além deste motivo, existem outras possível causas que podem estar na origem desta patologia, nomeadamente os fatores genéticos e toda a predisposição genética para o seu desenvolvimento, os níveis hormonais também têm muita interferência para o possível desenvolvimento de endometriose, tendo em conta que o ciclo menstrual funciona todo à base de hormonas e a sua desregulação pode comprometer a sua correta funcionalidade, nomeadamente no que diz respeito a níveis muito elevados de estrogénios. Outra das causas poderá ser os raciais, em que o risco é mais elevado nas mulheres caucasianas; as sugestões ambientais, que inclui as substâncias tóxicas, como por exemplo, as dioxinas; ou então por fatores sociais e pessoais que envolvem o fator stress, muito preponderante para o surgimento deste tipo de patologias endócrinas e fisiológicas do ciclo menstrual.
Manifestações da endometriose
A endometriose é um doença sintomatológica e provoca o aparecimento de sintomas, em que em 80% dos casos a dor é a principal manifestação da doença. Em 20% dos casos, a endometriose associa-se a infertilidade podendo também ser, embora mais raramente, assintomática.
A dor provocada pela endometriose caracteriza-se por ser extremamente incapacitante e tem um forte impacto nos diversos aspetos da vida da mulher, quer pessoais, quer sociais e profissionais. Manifesta-se de forma variável e depende do grau da doença e da localização anatómica, ou seja, do local dos principais focos da endometriose. A dor pode surgir muitas das vezes associadas à menstruação e, numa fase inicial, o tratamento associado é anti-inflamatórios ou sugestão com pílula. À medida que a doença vai progredindo, com ela a sintomatologia também evolui e a mulher vai acabando por deixar de responder ao tratamento referenciado anteriormente. Noutros casos, a sintomatologia pode manifestar-se durante as relações sexuais, àquilo que se chama dispareunia.
De acordo com o que foi descrito, é importante referenciar que a dor depende do local onde ocorre a endometriose. Assim, pode ocorrer dor na região pélvica ou pode surgir sob a forma de cólicas intestinais, sobretudo durante a menstruação, podendo em alguns casos associar-se a diarreia ou, mais raramente, a obstipação. Nos casos em que a endometriose afeta a bexiga, a dor surge durante a micção, podendo ocorrer hematúria (perda de sangue na urina). As hemorragias retais ocorrem quando a endometriose invade a mucosa retal. No caso da patologia progredir para os ureteres, pode ocorrer falência irreversível da função renal. Muitas mulheres referem ainda a presença de menstruações abundantes, para além da dor, na presença de endometriose.
De salientar que a endometriose, quando não diagnosticada e tratada, pode progredir e invadir outros tecidos. Existe uma correlação elevada entre a endometriose e o carcinoma de células claras do ovário. Outra das manifestações da endometriose é a infertilidade pela invasão e oclusão das trompas de Falópio pelo tecido endometrial.

Figura 3 – Formas de manifestação da endometriose.
Diagnóstico da endometriose
O diagnóstico centra-se essencialmente na história clínica e no exame médico.
No entanto, na ausência de endometriomas (lesões localizadas resultado da endometriose), são poucos os métodos de diagnóstico não invasivos capazes de detetar a doença, salientando-se a ecografia e a ressonância magnética para o efeito.
De acordo com a sintomatologia referenciada pela mulher assim como a localização da endometriose, pode ser necessário efetuar uma cistoscopia, rectosigmoidoscopia, um clister opaco ou uma tomografia computorizada.
O método ideal, que em termos diagnósticos, quer terapêuticos, é a laparoscopia. A partir deste método é possível obter um diagnóstico mais completo e fiável.
Tratamento da endometriose
A endometriose, atualmente, não tem cura.
O tratamento deve ser orientado para manter a dor e outros sintomas controlados, aumentar as possibilidades de gravidez e reduzir o número de focos provocados pela endometriose.
Existe ainda o tratamento cirúrgico que consiste na remoção dos endometriomas por laparoscopia. Se este não for viável por alguma razão, como sucede nas formas mais extensas da doença, a cirurgia implica a excisão dos órgãos pélvicos afetados na sua totalidade.
Em termos clínicos, o tratamento é orientado no sentido de controlar a dor, mediante a utilização de analgésicos, anti-inflamatórios ou recurso a terapêutica hormonal, como por exemplo a pílula.
Nos casos em que as mulheres desenvolvem infertilidade associada a endometriose e a mulher deseja engravidar, recorre-se a fertilização in vitro.
Prevenção da endometriose
Presentemente, não é possível prevenir o desenvolvimento e aparecimento da endometriose, mas essa possibilidade pode ser colmata com a redução dos níveis de estrogénios no organismo.
Neste sentido, é importante escolher o melhor método de contraceção ou o método mais adequado a cada mulher, praticar exercício físico regularmente, de moda a reduzir a massa gorda presente no organismo, que é considerada a principal fonte de estrogénios e evitar a ingestão excessiva e descontrolada de álcool e cafeína.

Figura 4 – Caso clínico de endometriose.
Fontes: Endometriosis association, CUF – endometriose, Gineco – endometriose, Minha Vida – endometriose, Minuto saudável – endometriose

