De conhecimento geral, a abordagem das doenças raras sofre um défice de conhecimentos médicos e científicos que tem vindo a ser colmatado ao longo do tempo. Colocadas de parte durante muitos anos por médicos, cientistas e órgãos políticos que não estavam conscientes da dimensão destas doenças e até muito recentemente não existiam quaisquer programas políticos de investigação científica neste âmbito. Embora não haja um tratamento específico para a maioria delas, a posse de cuidados de saúde adequados pode melhorar em grande parte a qualidade e esperança média de vida dos doentes portadores destas patologias. É importante referir a importância dos progressos científicos em algumas das doenças, mostrando que não é hora de desistir desta vertente, mas sim momento de intensificar o esforço na investigação e solidariedade social. Desta forma, o tema de hoje incidirá novamente numa doença rara, de forma a realçar a importância dos estudos que devem ser contínuos, que não pode haver um esquecimentos destes doentes portadores das mesmas em que o mundo deles é mais limitante do que qualquer tentativa de investigação…
Progéria – Breve introdução
Etimologicamente, a palavra Progéria deriva do grego “geras” que tem como significado velhice. Historicamente, a doença foi descrita pela primeira vez em 1886 e em 1904 começaram a ser realizados os primeiros estudos relacionados com o desenvolvimentos e características da doença. Assim, a doença é também designada por Síndrome de Hutchinson-Gilford em homenagem ao investigador que a descreveu pela primeira vez e que desenvolveu os primeiros estudos, referenciado anteriormente.
Progéria – Sobre a doença…
A Progéria caracteriza-se por uma doença genética bastante rara, afetando cerca de uma criança em cada quatro milhões e, atualmente sem cura. Clinicamente o que caracteriza esta doença é uma falha genética que acelera o processo de envelhecimento em cerca de sete a oito vezes mais que o habitual. Concludentemente, a esperança média de vida de um portador desta patologia diminui drasticamente, tendo por base esta caracterização. Está descrito que a esperança média de vida nas meninas (cerca de 14 anos) é inferior à dos meninos (cerca de 16 anos), no entanto, estes valores são baseados em meros dados estatísticos, ou seja, a durabilidade do portador desta patologia é bastante variável.
Como referenciado na abordagem inicial deste artigo, a nível científico, o conhecimento sobre esta a doença é escasso. No entanto, já existem reportórios de cientistas franceses e norte-americanos que descobriram uma mutação genética que seria a eventual causa deste envelhecimento precoce descrito nas crianças portadoras de Progéria. Com base nos dados descritos por estes investigadores e, com base em estudos mais aprofundados pode ser possível descobrir uma cura para esta doença e, ainda alcançar novos indícios sobre as consequências do processo de envelhecimento em indivíduos normais, ou seja, sobre o processo normal de envelhecimento.

Figura 1 – Progéria masculina.
Progéria – Desenvolvimento da doença
Geneticamente, a doença descrita baseia-se no gene LMNA codificador de proteínas como a Prelamina A e C, que são extremamente importantes no processo de estabilização da membrana interior do núcleo das células e, portanto, a base estrutural que mantém a célula em homeostasia com meio externo.
O que se verifica em crianças que desenvolvem este tipo de síndrome é uma ligeira mutação ao nível do gene LMNA e, portanto, desencadeia uma produção anormal da proteína A, designada por progerina resultando na deleção de cerca de 50 aminoácidos no seio dessa proteína. Ao considerar estas alterações, é possível interpretar simultaneamente uma destabilização nuclear notável, em que a célula modifica a sua forma estrutural e funcional normal e, torna-se particularmente nociva para os tecidos cardiovasculares, musculares, entre outros. A regeneração celular e tecidual, nestes casos acaba por não ocorrer, o que desencadeia uma morte celular prematura e, consequentemente tecidual.
A descoberta do gene causador da doença foi bastante primordial para o conhecimento e estudo da Progéria. Existem outras causas possíveis para o desenvolvimento dos sintomas e progressão da doença, nomeadamente a teoria dos telómeros e a teoria das helicases. Relativamente à primeira, ocorre uma perda progressiva e acelerada de parte dos telómeros, que controlam as divisões celulares impedindo que o DNA se desgaste. Relativamente à segunda teoria, esta desempenha um papel importante no processo de replicação do DNA, em que ocorre uma anomalia e faz com que a helicase (enzima) não funcione convenientemente.

Figura 2 – Fases da manifestação da Progéria com a idade.
Características clínicas da Progéria
As crianças portadoras de Progéria, normalmente só são diagnosticadas com a doença entre os 18 e os 24 meses de idade, ou seja, aparentemente nascem saudáveis começando a desenvolver sintomas de envelhecimento nesta fase.
O desenvolvimento psicossocial e intelectual, assim como a mobilidade, não são afetados por esta patologia, ou seja, estas crianças frequentam a escola normalmente e têm uma vida consideravelmente normal. No que diz respeito ao sistema imunitário destas crianças, este também se demonstra normal. Em termos de manifestações clínicas, estas direcionam-se para alterações radiológicas e histopatológicas características da doença. A nível estrtural esquelético, estas crianças desenvolvem osteoperose e escoliose. As restantes alterações clínicas associadas à doença manifestam-se ao nível epidérmico.

Figura 3 – Progéria masculina – alterações faciais.
Sintomas da Progéria
Os principais sintomas da Progéria consistem em:
- Anomalias no crescimento;
- Doenças cardiovasculares;
- Rigidez nas articulações;
- Aterosclerose generalizada – doença inflamatória em que ocorrem ateromas no interior dos vasos sanguíneos.
- Desenvolvimento de doenças características da idade avançada – doenças como cataratas, Alzheimer e distúrbios senis não foram registados.
As principais características da Progéria incidem em:
- Artroses;
- Baixa estatura;
- Cabelo rarefeito ou ausente (calvície);
- Clavícula anormal ou ausente;
- Puberdade tardia;
- Pele fina, seca e enrugada;
- Pilosidade corporal reduzida;
- Unhas finas;
- Erupção tardia dos dentes;
- Voz normal.

Figura 4 – Sintomas, manifestações e sinais da Progéria.
Diagnóstico da Progéria
O diagnóstico da Progéria é fundamentalmente clínico realizado em crianças que apresentem sinais iniciais da doença, entre o primeiro e o segundo anos de vida. Não existe nenhum exame que certifique o diagnóstico, daí a necessidade de estudos mais aprofundados.
O sintoma/sinal mais notado entre os portadores desta patologia consiste no aumento de excreção de ácido hialurónico pela urina e, este quando produzido em grande quantidade é indicativo do envelhecimento das células. Para além disso, existe uma série de sinais radiológicos e histopatológicos que podem ser determinadores da doença. A nível radiológico existem alterações como a osteoperose e escoliose facilmente distinguíveis neste tipo de exames clínicos. As alterações histopatológicas mais notórias incidem nas alterações ao nível epidérmico.
Tratamento da Progéria
Não existem ainda tratamentos concisos e concretos para a doença propriamente dita, apenas estão descritos tratamentos experimentais. Para reduzir os efeitos da patologia, normalmente são administrados medicamentos que visam minimizar os sintomas, desde complexos vitamínicos, co-enzima Q-10, ácidos gordos, anti-oxidantes, cálcio e nitroglicerina.
Remate final…
Os cientistas acreditam que a terapia genética será a melhor solução interventiva a longo prazo para esta doença. Terapia segundo a teoria do gene mutante, em que uma das formas de tratamento seria inserir o gene que codifica as proteínas nos portadores de Progéria. Relativamente à teoria dos telómeros, esta consistia em injetar o gene da telomerase diretamente no interior das células e dar ao paciente medicamentos que estimulassem a produção desta enzima. Neste momento, o tratamento continua em investigação…
Fontes: Genética – Progéria, Tua Saúde – Progéria, Minha Vida – o que é Progeria

