Giardia lamblia é o parasita intestinal mais frequente e importante em Portugal. A giardíase afeta sobretudo crianças. As principais fontes de infeção por G. lamblia são a comida e água contaminadas.
O parasita habita o intestino delgado do Homem na sua forma vegetativa (ou trofozoíto). O trofozoíto tem uma forma piriforme, com dois núcleos com grossos cariossomas centrais na face dorsal, parecendo uma máscara. Do blefaroplasto (eixo central) saem quatro pares de flagelos. Os corpos basais (ou enigmáticos) localizam-se abaixo dos núcleos (parecem duas vírgulas). A face ventral do trofozoíto tem um disco sucturial (ventosa), que o adere à mucosa intestinal.
Ciclo de vida
Os quistos são formas resistentes que, em conjunto com os trofozoítos são eliminados nas fezes. Os quistos têm grande resistência no reservatório telúrico e na água. A infeção ocorre pela ingestão de quistos em água contaminada, alimentos ou pela via fecal-oral (mãos ou fómites). No intestino delgado, o quisto perde a parede quística (a digestão começa já no estômago), dando origem a dois trofozoítos. Os trofozoítos multiplicam-se assexuadamente por fissão binária longitudinal, ficando aderidos à mucosa intestinal pelo seu disco sucturial ventral. O enquistamento ocorre quando os parasitas se dirigem para o cólon, com a retração dos flagelos e formação de uma parede quística. Os dois núcleos dividem-se, formando quatro. As formas quísticas são geralmente encontradas em fezes consistentes e trofozoítos em diarreia.
Muitas vezes, a libertação do trofozoíto da mucosa intestinal e o enquistamento é sincronizada. A cisteína e o colesterol parecem estar envolvidos neste processo. A sincronização do enquistamento leva também à sincronização da libertação de quistos nas fezes, pelo que existem períodos negativos de eliminação de quistos nas fezes.
Assim, as fezes devem ser colhidas em três dias não consecutivos quando se suspeita de giardíase.
Giardia só foi considerada patogénica há pouco tempo, uma vez que é frequente as infeções serem assintomáticas. Quando há sintomatologia, ela aparece sob a forma de diarreia, obstipação, flatulência, dores abdominais e dejeções explosivas. Esta infeção é particularmente grave nas crianças, já que estão mais expostas/vulneráveis às fontes de contaminação e a severidade dos sintomas é maior.
Diagnóstico
Observação de trofozoítos e quistos em fezes.
Os quistos de G. lamblia são visíveis na objetiva de 10x, aparecendo como uma estrutura oval com refringência esverdeada e espelhada típica. Na objetiva de 40x, vê-se o esboço das estruturas dos trofozoítos: os corpos basais ou enigmático, o bleferoplasto e os quatro núcleos. Não se usa a objetiva de 100x na observação de Giardia porque é necessário o uso de óleo de imersão. Este, sendo muito denso e pesado, faz com que os parasitas se espalhem para os bordos da lâmina (fogem).
Nas preparações a fresco podem usar-se o lugol para salientar as estruturas internas. A coloração de trichrom e hemateína e eosina coram elementos parasitários, mas não se usa na rotina porque são de difícil ajustamentos.
O diagnóstico também pode ser feito pela pesquisa de anticorpos no soro do paciente por imunofluorescência direta (marcação de Giardia).
A pesquisa de coproantigénios por imunofluorescência direta ou ELISA tem a vantagem de detetar não só parasitas completos como os atípicos ou os restos celulares (só acontece na entrada e saída de períodos negativos de eliminação).
Imagens: CDC – Centre for Disease Control and Prevention. DPDx – Laboratory Identification of Parasitic Diseases of Public Health Concern (https://www.cdc.gov/dpdx/giardiasis/index.html)

