A doença de Addison é uma doença endócrina que se caracteriza pela diminuição das hormonas produzidas pelas supra-renais devido a um ataque a estas glândulas.
As glândulas supra-renais (também designadas glândulas adrenais) localizam-se sobre os rins. A sua função é a produção de hormonas que estão envolvidas na resposta fisiológica ao stress, na manutenção dos níveis de eletrólitos no sangue e na modulação da pressão arterial1.

Localização das glândulas supra-renais. Retirado de Penn Medicine.
Como todas as outras glândulas endócrinas, as adrenais estão sujeitas a um controlo (por feedback negativo) pelo sistema hipotálamo-hipófise: o hipotálamo liberta corticotrofina (CRH) que estimula a hipófise a libertar a hormona adenocorticotrófica (ACTH). A ACTH, por sua vez, estimula as glândulas adrenais a libertar cortisol, aldosterona e androgénios adrenais. É importante notar que a libertação hormonal pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenais respeita ciclos circadianos, ou seja, varia ao longo do dia1.
As adrenais têm duas zonas distintas: a zona medular, mais central, é responsável pela produção das catecolaminas adrenalina e noradrenalina. O cortex, mais periférico, é responsável pela produção de (1) mineralocorticóides como a aldosterona, que intervém no controlo dos eletrólitos sanguíneos e da pressão arterial; (2) glucocorticóides, como o cortisol, que controla o metabolismo dos lípidos, glícidos e proteínas e (3) androgénios adrenais, que são responsáveis pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias no início da puberdade1.
A doença de Addison foi descrita por Thomas Addison em 1855, que notou uma destruição das glândulas adrenais em 11 cadáveres infetados com tuberculose2. Atualmente, a doença de Addison é classificada como uma adrenopatia primária causada, na sua grande maioria, por mecanismos autoimunes, embora também possam haver outros fatores envolvidos.
O ataque à glândula é gradual, o que faz com que a doença passe despercebida durante anos e até décadas. Estima-se que os sinais só são visíveis quando 90% da glândula foi afetada3. Esta doença é fatal se não tratada, já que é acompanhada de hipotensão e/ou hipovolémia3. Outros sintomas são as náuseas e vómitos, fadiga e fraqueza, perda de peso, apetite por alimentos salgados e a hiperpigmentação da pele, que é um sintoma muito particular e característico da doença de Addison1,3.
Um médico suspeita da doença de Addison quando recebe um doente com estes sintomas (que não são muito específicos), especialmente quando associados a uma endocrinopatia previamente diagnosticada1. Para confirmar o diagnóstico, deve ser feita a análise do cortisol na urina de 24 horas (porque como esta hormona obedece a variações circadianas, análises pontuais poderiam levar a um falso diagnóstico), em conjunto com um doseamento da aldosterona no plasma. Estas duas hormonas, portanto, deverão estar em níveis inferiores aos considerados normais1. Valores de ACTH superiores aos normais suportam o diagnóstico. Como esta doença se caracteriza por um ataque imune mediado por anticorpos à glândula supra-renal, a presença de auto-anticorpos contra enzimas das supra-renais confirma o diagnóstico1.
Até 1940-1950, década em que se começou a sintetizar e a introduzir na terapêutica a cortisona, a doença de Addison era fatal. A partir dessa altura, ela começou a ser considerada uma doença crónica e controlada através de fármacos como a hidrocortisona e a fludrocortisona (substituição da aldosterona)1.
Por curiosidade, embora nunca tenha sido confirmado, suspeitava-se que o 35º presidente dos Estados Unidos da América, John F. Kennedy, sofria da doença de Addison. Na fotografia do lado é notória a hiperpigmentação no rosto de JFK comparado com a sua esposa, Jackie Kennedy. Em baixo, a face de JFK, com o passar dos anos, tornou-se mais “redonda” (a chamada moon face), o que também é característico dos doentes com Addison.

1. Fox, T., Brooke, A. & Vaidya, B. Endocrinology. 1 edn, 288 (JP MEDICAL PUBLISHERS, 2015).
2. Bratland, E. & Husebye, E. S. Cellular immunity and immunopathology in autoimmune Addison’s disease. Mol Cell Endocrinol 336, 180-190, doi:10.1016/j.mce.2010.12.015 (2011).
3. Brandao Neto, R. A. & de Carvalho, J. F. Diagnosis and classification of Addison’s disease (autoimmune adrenalitis). Autoimmun Rev 13, 408-411, doi:10.1016/j.autrev.2014.01.025 (2014).

